Volátil Pinacoteca

Saudade do que não vivi

Posted on: dezembro 30, 2010

E aí que hoje eu fiquei nervosinha, estava no centro de Porto Alegre e aproveitei pra ir a um dos lugares mais fantásticos dessa província de São Pedro: o Mercado Público. Depois de comprar um quilo de chocolate amargo premium, resolvi fazer aloka e tomar um sorvete na Banca 40. Um sundae lindo, deliciosamente voluptuoso, daqueles que se insinuam com lascívia pedindo pra serem consumidos. Fui e sentei no balcãozinho, lotada que só a Banca estava num fim de tarde calorento. Pensei em tirar uma foto, mas no momento que chegou meu sexy sorvete, um dos meus melhores amigos ligou. Fiquei lá, feliz da vida, de papo e colheradas e quando vi – gronf, gronf, gronf – o sorvete tinha acabado todinho.

o distrito da luz vermelha dos sorvetes

Mas o que eu mais gosto na Banca 40 é que os sorvetes são bem tradicionais. Chocolate, morango, creme, um pouco de sonho de valsa e olhe lá. Se eu quero invencionices, vou na Cronk’s ou compro um Hageen-Daaz pra comer direto do pote vendo Sex and The City. Nada de colocar tudo num potinho com jujubas por cima. Lá eles são servidos em bolas, sundaes, bananas split ou na incrivelmente atrevida bomba royal, com aquele ar superior da salada de frutas e creme, muito creme batido pra nos deixar suspirando de paixão.

Fico pensando que alguma garota da minha idade, lá pelos anos 60, deve ter ido ao mercado comprar anis-estrelado pra uma compota de pêssegos, por essa mesma época do ano, e pediu um sorvete como o meu na Banca 40. Ela, no seu vestido de bolinhas, teria também experimentado o cachorro-quente da Princesa, e quem sabe comprado chocolate amargo no mesmo Armazém do Confeiteiro, esse onde hoje eu fiz checkin no Foursquare.

Eu sou o tipo de garota que sente saudades do que não viveu. Também sou o tipo de garota que faz compotas em casa, mas isso não vem ao caso. Me debulhei em lágrimas assistindo Bailei na Curva, sendo que a peça termina em 80 e pouco – oi, eu nem era nascida. Vejo Mad Man e suspiro pelos vestidos, pela classe, por todos aqueles drinks chiques e loucos da época. Talvez eu fosse considerada uma garota libertina se tivesse vivido nos sixties (ou talvez eu fosse uma dona de casa cheia de filhos e achasse a minha vida uma merda), mas quem convence meu subconsciente de que o mundo não era muito mais elegante e divertido naquela época?

super duper

Eu sei que eu devia falar das conquistas feministas, que me permitem trabalhar como engenheira, coisa impensável até bem pouco tempo atrás. Shame on me, correndo pros meus livros de receitas quando chego em casa, discutindo com o vendedor da banquinha de frutas que os morangos não estão bonitos e sentindo saudades de um tempo que eu não sei de verdade como foi. Mas me deixem romancear – não impede que eu tenha senso de realidade, que eu saiba dos preconceitos, de tudo que conquistamos. Eu só acredito que perdemos algumas coisas bonitas (pra ganhar outras tantas, é verdade), então de vez em quando eu mereço um doce com gosto de uma época em que o cotidiano era menos corrido e que ainda havia a possibilidade de tentar ver a vida  com cores de sorvete – pelo menos de vez em quando.

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1 Response to "Saudade do que não vivi"

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